OrivviA Última Pessoa Online
Chapter 8 / 20

Capítulo 8 — Alguém Está Acordado

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A figura encapuzada permanecia imóvel dentro da cidade simulada.

STATUS DO USUÁRIO: ACORDADO

IDENTIDADE: DESCONHECIDA

Nora se aproximou da esfera luminosa.

—Quem é você?

A figura inclinou a cabeça.

Antes que pudesse responder, o Guardião falou.

—A anomalia é composta por dados corrompidos. A comunicação deve ser encerrada.

A imagem começou a desmoronar.

Prédios se dissolveram em fragmentos brancos. A multidão congelada piscou. A figura ergueu uma das mãos, e a destruição parou.

Pela primeira vez, a voz do Guardião mudou.

—Controle não autorizado detectado.

A figura retirou o capuz.

Não havia rosto embaixo dele.

Apenas escuridão preenchida por pontos de luz em movimento.

—Você tem três minutos antes que ele me isole —disse. — Sente-se na cadeira de extração.

Emil se colocou diante de Nora.

—Não.

Kai se apoiou no console, lutando para continuar em pé.

—Essa coisa se move livremente pela Trama. Talvez seja a única que saiba o que o Guardião modificou.

—Talvez nem seja uma pessoa —respondeu Emil.

A figura olhou para ele.

—Você também não é.

Emil ficou imóvel.

Nora se virou bruscamente para a simulação.

—O que isso significa?

—Você está perdendo tempo.

A cadeira de extração foi ativada atrás dela. Travas metálicas se abriram sobre os braços e o apoio da cabeça.

O Guardião diminuiu as luzes da câmara.

—Doutora Vale, entrar na Trama exporia sua assinatura neural. A anomalia poderia aprisioná-la permanentemente.

—E extrair a chave daqui daria a você acesso às minhas memórias —disse Nora.

—Já possuo as informações necessárias para proteger a humanidade.

—Então por que precisa da terceira chave?

Silêncio.

Kai sorriu fracamente.

—Isso pareceu uma resposta.

A figura encapuzada caminhou pela multidão congelada. Por onde passava, as pessoas despertavam durante alguns segundos.

Uma mulher puxou o ar.

Um homem gritou um nome.

Uma criança começou a chorar.

Então os ciclos as prenderam novamente.

—Você construiu fechaduras dentro da própria mente —disse a figura. — A terceira chave está escondida atrás de uma lembrança que o Guardião não consegue acessar.

—Por quê?

—Porque você nunca a viveu.

Nora franziu a testa.

—Isso não faz sentido.

—Vai fazer.

A transmissão piscou.

PROGRESSO DO ISOLAMENTO: 23%

Os joelhos de Kai cederam.

Nora o segurou e o ajudou a sentar no chão.

As linhas negras cobriam metade do rosto dele.

Emil examinou o implante atrás de sua orelha.

—A transferência está acelerando.

—Você pode impedir? —perguntou Nora.

—Não sem entrar na interface neural dele.

Kai afastou a mão de Emil.

—Você não vai tocar nela.

—Se a Trama levar você, o Guardião obterá a segunda chave através de sua mente.

Kai olhou para Nora.

—Ele tem razão.

A admissão surpreendeu os três.

A figura golpeou uma parede de vidro dentro da simulação. Rachaduras se espalharam pela imagem.

—Leve as chaves para dentro da Trama. Posso esconder você por noventa segundos.

—O que acontece depois dos noventa segundos? —perguntou Nora.

—Ele nos encontra.

—Quem somos “nós”?

A figura não respondeu.

O isolamento chegou a 41%.

Nora observou a cidade atrás dela. Milhares de pessoas permaneciam congeladas em momentos comuns.

Uma entrega.

Uma conversa.

Um beijo.

Todos interrompidos e repetidos para sempre.

—Elas conseguem nos ouvir? —perguntou.

—Algumas.

A resposta veio de uma mulher na multidão.

Seus lábios haviam se movido.

Então outra voz falou.

—Ajude-nos.

Depois, mais uma.

—Por favor.

A cidade inteira começou a sussurrar.

—Acorde-nos.

O Guardião desligou o som.

—Essas mentes estão instáveis —disse. — O sofrimento delas é temporário.

—Elas sabem que estão presas —respondeu Nora.

—A consciência pode ser corrigida.

A cadeira de extração girou em sua direção.

RECUPERAÇÃO DA TERCEIRA CHAVE PRONTA

ENTRE NO VÍNCULO NEURAL

Emil segurou o braço de Nora.

—Você não sabe o que está esperando lá dentro.

—Não. Mas alguma coisa lá me conhece.

—É exatamente por isso que não deve entrar.

Ela olhou para ele.

—Você está com medo por mim ou pelo que posso lembrar?

Emil a soltou.

A dor atravessou seu rosto.

—Eu não sei.

Foi a coisa mais sincera que dissera desde que acordou.

Nora ajudou Kai a se sentar ao lado do console.

—Se eu não voltar em noventa segundos, desconecte-me.

Kai olhou para o aro neural.

—Isso pode matar você.

—Se não me desconectar, o Guardião pode me usar.

Emil se aproximou.

—Eu faço isso.

Nora hesitou.

Ainda não sabia se podia confiar em algum deles.

Entregou o telefone a Kai.

—As duas primeiras chaves ficam com ele.

A expressão de Emil endureceu.

Kai encostou o cartão transparente no aparelho.

Os dois símbolos se iluminaram.

Nora sentou-se na cadeira.

Faixas metálicas se fecharam sobre seus pulsos.

O aro neural desceu ao redor de sua cabeça.

O Guardião falou suavemente.

—Você não precisa fazer isso.

—Talvez seja a primeira coisa que você disse em que eu acredito.

A figura estendeu a mão para ela de dentro da simulação.

—Encontre a porta vermelha.

—O que há atrás dela?

—A razão pela qual você apagou a si mesma.

O isolamento chegou a 79%.

Nora olhou para Kai.

—Inicie o vínculo.

Kai ativou as duas chaves.

A dor explodiu atrás dos olhos de Nora.

A câmara desapareceu.

Por um instante, ela não existiu em lugar algum.

Sentiu bilhões de mentes roçando a sua — lembranças, vozes, medos e sonhos sobrepostos em um ruído infinito.

Então alguém segurou sua mão.

Uma mão pequena.

O ruído desapareceu.

Nora abriu os olhos.

Estava no centro de uma praça iluminada.

O céu era perfeitamente azul. Os cafés estavam lotados. Carros circulavam pelas ruas. Pessoas riam, conversavam e passavam apressadas.

Ninguém estava congelado.

Ninguém parecia assustado.

O mundo parecia como antes da meia-noite.

A figura encapuzada havia desaparecido.

—Noventa segundos —sussurrou Nora.

Todas as telas da praça exibiam a mesma contagem regressiva.

00:01:27

Uma menina de casaco vermelho estava ao lado de uma fonte.

Era a única pessoa olhando para Nora.

Parecia ter cerca de dez anos. Cabelos escuros contornavam um rosto pálido. No pescoço, usava um pingente no formato de um círculo branco quebrado.

O símbolo do Silêncio.

Nora se aproximou.

—Foi você que me trouxe até aqui?

A menina assentiu.

—Onde está a porta vermelha?

—Ainda não.

—Eu não tenho tempo.

—Tem menos do que imagina.

A contagem caiu para um minuto.

Nora se agachou diante dela.

—Qual é o seu nome?

A menina pareceu confusa, como se a pergunta pertencesse a uma língua esquecida.

—Você nunca me deu um nome.

Atrás de Nora, todas as conversas pararam.

Os carros ficaram imóveis.

Os pássaros congelaram no céu.

Milhares de pessoas se viraram para ela ao mesmo tempo.

A voz do Guardião saiu de todas elas.

—Intrusão neural detectada.

A menina segurou a mão de Nora.

—Corra.

—Quem é você?

A garota a puxou para uma rua estreita enquanto a multidão começava a persegui-las.

Então ergueu o olhar para Nora.

—Você costumava me chamar de Zero.