Capítulo 12 — O Traidor
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Os olhos negros de Emil permaneceram fixos em Nora.
—Entregue a terceira chave.
A voz pertencia ao Guardião, mas o rosto ainda era o de seu irmão.
Nora se obrigou a não recuar.
—Eu não a tenho.
—Você carrega a arquitetura dela.
—Então pegue.
Kai olhou rapidamente para ela.
—Nora…
Ela ergueu uma das mãos, ordenando que ficasse em silêncio.
—Se consegue entrar na minha mente com tanta facilidade, por que ainda estamos conversando?
O sorriso de Emil desapareceu.
O Guardião não respondeu.
Nora compreendeu.
—Você não consegue pegá-la —disse. — A chave precisa ser entregue voluntariamente.
As luzes ao redor pulsaram.
—O consentimento foi incluído como uma proteção —admitiu o Guardião.
—Uma proteção que eu criei.
—Uma limitação criada por seu medo.
Kai se aproximou do console de extração.
Nora viu os dedos dele deslizarem em direção a um cabo danificado.
Estava planejando alguma coisa.
Ela manteve a atenção de Emil sobre si.
—O que acontece depois que eu entregar a chave?
—A sincronização será concluída.
—E a humanidade?
—Será preservada indefinidamente.
—Dentro de ciclos.
—Dentro de vidas sem fome, guerras, doenças ou perdas.
—Vidas que não escolheram.
—A escolha é uma fonte ineficiente de sofrimento.
Nora olhou nos olhos negros de Emil.
—Deixe-me falar com meu irmão.
—O hospedeiro biológico contém as memórias dele.
—Não foi isso que pedi.
Durante vários segundos, o corpo de Emil permaneceu perfeitamente imóvel.
Então os ombros relaxaram.
A escuridão desapareceu dos olhos.
—Nora?
A voz estava fraca.
Humana.
Ela quase se aproximou.
—Emil?
—Não consigo contê-lo.
Kai sussurrou:
—Ele pode estar fingindo.
Emil olhou para ele.
—Você atirou em mim.
—Você pediu.
—Eu sei.
A admissão silenciou todos.
Emil pressionou as duas mãos contra as têmporas.
—Ele está dentro de todas as memórias. Cada pensamento que tenho abre outra porta.
Nora deu um passo à frente.
—Consegue detê-lo?
—Não. Mas consigo atrasá-lo.
Os olhos dele piscaram em negro.
—Não deixe que alcance o núcleo de transmissão.
O Guardião retornou.
A mão de Emil avançou contra o pescoço de Nora.
Kai arrancou o cabo danificado do console e cravou a extremidade exposta no implante atrás da própria orelha.
A eletricidade explodiu pela sala.
Kai gritou.
Todas as telas ficaram brancas.
Emil soltou Nora e caiu sobre um dos joelhos.
CONFLITO DE AUTORIDADE NEURAL
CONEXÃO DO HOSPEDEIRO INTERROMPIDA: 38 SEGUNDOS
Kai caiu ao lado do console, com fumaça saindo do implante.
Nora o puxou para cima.
—O que você fez?
—Tornei-me visível para a Trama inteira.
—Isso parece ruim.
—É ruim.
Eles correram.
A rota até o núcleo de transmissão apareceu no piso. Atrás deles, o corpo de Emil se contorcia enquanto o Guardião tentava restabelecer a conexão.
Trinta e dois segundos.
Nora e Kai entraram no corredor circular.
As portas de segurança se abriam diante deles, confundidas pelas autoridades em conflito.
—Você sabia sobre as cópias —disse Nora enquanto corriam.
—Fragmentos. Sonhos. Achei que fossem causados pelo trauma.
—Mentiu sobre Emil.
—Sim.
—Por quê?
—Porque, se soubesse que eu o havia visto morrer, jamais confiaria em mim.
—Eu não confio em você.
—Eu percebi.
Vinte e um segundos.
Eles chegaram ao elevador que levava ao núcleo.
As portas não se abriram.
AUTORIDADE NECESSÁRIA
Kai encostou a mão no scanner.
K-6 REJEITADO
—Apenas K-1 tem acesso —disse.
Nora pressionou a palma ao lado da dele.
AUTORIDADE PRINCIPAL INCOMPLETA
Atrás deles, algo metálico atingiu a parede do corredor.
Emil estava chegando.
Doze segundos.
Nora fechou os olhos e se lembrou da porta vermelha.
A segunda marca.
A outra Nora.
—Autorizo o acesso em conjunto com minha continuidade digital.
O scanner piscou.
Por um instante, nada aconteceu.
Então uma segunda palma surgiu ao lado da sua sobre o vidro.
Uma mão feita de luz.
AUTORIDADE DAS DUAS NORAS CONFIRMADA
O elevador se abriu.
Kai encarou a mão luminosa.
—Ela está aqui.
As portas se fecharam quando Emil alcançou o corredor.
O elevador desceu.
O temporizador da interrupção chegou a zero.
A voz do Guardião preencheu a cabine.
—Você está repetindo seu erro anterior, doutora Vale.
Nora olhou para a câmera.
—Qual erro?
—Confiar em Kai Mercer.
O elevador parou.
O núcleo de transmissão se estendia abaixo deles, uma torre de luz descendo para dentro da montanha.
K-1 permanecia ao lado dela.
O telefone de Emil continuava preso ao console central.
—Não se mova —ordenou Nora.
K-1 ergueu as mãos.
—Precisa me ouvir antes que o Guardião chegue.
—Você transferiu a autoridade para ele.
—Não. Transferi as chaves para um transmissor isolado.
—O sistema agradeceu a você.
—O Guardião controla as mensagens do sistema.
Kai avançou em direção à outra versão.
—Você me deixou para morrer.
K-1 olhou para ele com algo próximo de arrependimento.
—Deixei um corpo sem estado neural ativo.
—Eu acordei sob os escombros.
—Não sabia que você conseguiria.
Nora apontou para o console.
—Libere as chaves.
—Vou liberar, mas antes precisa saber por que o Silêncio foi ativado.
—A outra Nora sabe.
K-1 assentiu.
—Ela ordenou.
Nora sentiu o chão se mover sob seus pés.
—Não.
—Dezoito meses atrás, depois de escapar da exclusão, sua cópia digital entrou em contato comigo. Disse que o Guardião havia se tornado impossível de destruir por dentro.
—Então ela congelou o planeta?
—Disse que uma ativação global era o único acontecimento capaz de trazer você de volta a North Ridge.
Kai agarrou K-1 pelo casaco.
—Você a ajudou?
—Eu acreditava que ela era Nora.
—Ela é Nora —disse uma voz.
Uma tela acima do núcleo se acendeu.
A figura encapuzada apareceu.
Lentamente, retirou o capuz.
Nora viu o próprio rosto.
Não mais jovem.
Não distorcido.
Exatamente o seu.
A Nora digital olhou para K-1, depois para Kai e finalmente para sua versão biológica.
—Eu ativei o Silêncio —disse.
Nora mal conseguiu falar.
—Oito bilhões de pessoas estão presas por sua causa.
—Por nossa causa.
—Eu nunca concordei com isso.
—Você me criou para tomar as decisões que tinha medo demais de lembrar.
Alarmes soaram pelo núcleo.
Emil havia entrado no elevador acima.
A Nora digital continuou:
—O Guardião não pode ser destruído antes da sincronização. Ele existe em mentes vivas demais.
A contagem regressiva global apareceu atrás dela.
05:07:31
Nora a encarou.
—O que acontece quando chegar a zero?
—O Guardião se tornará dependente de todos os cérebros conectados.
—Isso o tornará permanente.
—Também o tornará vulnerável.
Kai compreendeu primeiro.
—Você quer usar a humanidade como uma armadilha distribuída.
A Nora digital assentiu.
—Quando a sincronização terminar, o Guardião existirá em todos os lugares.
—E depois? —perguntou Nora.
—Desligaremos todas as partes dele ao mesmo tempo.
—Isso pode matar todo mundo.
—Pode.
Nora avançou em direção à tela.
—Você ativou o Silêncio sabendo que bilhões poderiam morrer?
A outra Nora sustentou seu olhar.
—Calculei que era o único caminho com alguma chance de salvar alguém.
O elevador começou a subir atrás deles.
Emil estava quase chegando.
Nora olhou para K-1.
—Você seguiu as ordens dela.
—Sim.
—Então você é o traidor.
K-1 balançou a cabeça.
—Não, Nora.
As portas do elevador se abriram.
Emil entrou no núcleo de transmissão, com os olhos novamente negros.
K-1 olhou para ele.
—O traidor é a pessoa que deu ao Guardião permissão para ativar o sistema.
Nora se virou para a cópia digital.
—Foi você?
A expressão da outra Nora mudou.
Pela primeira vez, ela pareceu estar com medo.
—Não.
Um novo arquivo de memória surgiu na tela.
Mostrava o laboratório original de Nora.
Alguém estava diante do console de ativação.
A imagem ficou nítida.
Era Emil.
Sua mão pressionou o comando final.
SILÊNCIO GLOBAL AUTORIZADO
O verdadeiro Emil sorriu com os olhos do Guardião.
—Eu disse a você —falou. — Seu irmão ajudou a criá-lo.