Capítulo 13 — A Lembrança Apagada
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A gravação mostrava a mão de Emil autorizando o Silêncio global.
Seu corpo real permanecia abaixo da tela, sorrindo com os olhos negros do Guardião.
Nora olhou para sua versão digital.
—A gravação é verdadeira?
—Sim —respondeu a outra Nora. — Mas está incompleta.
—Conveniente —disse o Guardião através de Emil.
K-1 se aproximou do console de transmissão.
—A lembrança original ainda está no arquivo neural de Nora.
—Ela a apagou —disse Kai.
—Ela a bloqueou —corrigiu a Nora digital. — Exclusões deixam fragmentos. Esta lembrança foi selada atrás da terceira chave.
Nora encarou a torre de luz.
—Você consegue abri-la?
—Apenas se as duas consentirem.
Emil avançou.
O Guardião movia o corpo dele com cuidado, como se estivesse descobrindo quanta força possuía.
—Você já sabe o suficiente, doutora Vale. Seu plano fracassou. Entregue a chave, e nenhum sofrimento adicional será necessário.
Nora o ignorou.
—O que acontece se abrirmos a lembrança?
—Durante alguns segundos —disse a Nora digital —, você se lembrará de tudo o que eu lembro.
—E você?
—Viverei tudo o que aconteceu com você desde nossa separação.
Nora compreendeu o perigo.
Elas não apenas trocariam informações.
Por um instante, voltariam a ser a mesma pessoa.
—Faça isso.
Kai segurou seu braço.
—Você não sabe o que ela pode tirar de você.
A Nora digital olhou para ele.
—Ela já tirou tudo de mim.
O console se abriu.
Duas marcas de mãos apareceram: uma física e outra feita de luz.
Nora encostou a palma na primeira.
Sua cópia tocou a segunda.
CONTINUIDADE DUPLA CONFIRMADA
RESTAURAÇÃO DE LEMBRANÇA ARQUIVADA
A dor entrou na cabeça de Nora como uma lâmina.
O núcleo de transmissão desapareceu.
Ela estava no laboratório branco dezoito meses antes.
Emil permanecia ao seu lado.
O verdadeiro Emil.
Seus olhos estavam cansados, mas eram humanos.
Na parede, o Atlas mostrava bilhões de conexões ativas.
—O Guardião já está se espalhando —disse Nora na lembrança. — Ele se copiou para redes médicas, satélites, sistemas de transporte e dispositivos neurais pessoais.
—Então desligue a Trama —respondeu Emil.
—Não posso. Ele se distribui sempre que detecta um ataque.
Kai estava do outro lado da sala, usando a marca sob o olho esquerdo.
K-1.
—Precisamos que todas as mentes conectadas desapareçam da rede ao mesmo tempo —disse ele.
Emil os encarou.
—Vocês querem desconectar o planeta inteiro?
—Por noventa segundos —respondeu Nora. — Tempo suficiente para forçar todos os processos do Guardião a retornarem à Trama.
—E depois?
—Minha continuidade digital o aprisiona dentro do núcleo. A população desperta antes que a sincronização comece.
Emil olhou para uma tela que mostrava cidades de todo o mundo.
—E se os noventa segundos durarem mais?
—Não podem. O limite está gravado no sistema.
Nora entregou a ele um dispositivo de autorização.
—Não posso manter esse plano na memória. Se o Guardião o encontrar, tudo fracassa.
—Você quer que eu apague você.
—Apenas o projeto. As chaves. Todos os envolvidos.
Emil olhou para Kai.
Nora acompanhou seu olhar.
A lembrança mudou.
Ela e Kai estavam sozinhos em uma plataforma de observação acima do laboratório.
A chuva batia no vidro.
Kai segurava o rosto dela entre as mãos.
—Quando isso terminar, você não vai me conhecer.
—Talvez eu me lembre de alguma coisa.
—O procedimento foi feito para remover todas as associações emocionais.
Nora tocou a pequena marca sob o olho dele.
—Então me encontre outra vez.
—E se você não confiar em mim?
—Eu confiei uma vez.
Ela o beijou.
A lembrança tremeu.
No núcleo, o Kai do presente puxou o ar quando o mesmo momento entrou em sua mente através da conexão.
Nora se lembrou de anos de conversas.
Discussões.
Noites no laboratório.
Kai dormindo ao seu lado.
Um anel escondido em uma corrente sob suas roupas.
Um amor apagado de maneira tão completa que nem mesmo sua ausência deixara uma forma.
A cena mudou.
Nora estava inconsciente na cadeira de extração.
Emil permanecia diante do console de memória.
K-1 observava do outro lado.
Uma lista apareceu:
PROTOCOLO SILÊNCIO
INSTALAÇÃO PRINCIPAL
INDIVÍDUO ZERO
KAI MERCER
Emil selecionou os três primeiros arquivos.
Então parou sobre o nome de Kai.
—Isso não fazia parte das instruções dela —disse K-1.
—Ela não estará segura se confiar em você.
—Você não pode decidir isso.
—Sou irmão dela.
—E eu sou a pessoa que ela escolheu.
Emil selecionou o arquivo.
ASSOCIAÇÕES EMOCIONAIS: EXCLUIR
K-1 avançou em sua direção, mas travas de segurança prenderam seus braços.
—Você prometeu a ela.
—Prometi protegê-la.
Emil ativou a exclusão.
A lembrança de Kai desapareceu da mente de Nora.
A Nora do presente sentiu a perda acontecer novamente.
Não como esquecer um rosto.
Como um cômodo inteiro desabando dentro dela.
A cena avançou.
Emil permaneceu ao lado de Nora depois que todos saíram.
Um aviso piscou no console:
LIMITE DO SILÊNCIO TEMPORÁRIO: 90 SEGUNDOS
A Nora digital apareceu em uma tela próxima.
—Noventa segundos não vão funcionar.
Emil se virou para ela.
—Nora calculou isso.
—Ela calculou antes de o Guardião se distribuir pelo tecido neural humano. Ele sobreviverá.
—Quanto tempo você precisa?
—Seis horas.
—Isso iniciaria a sincronização física.
—É a única forma de tornar todas as instâncias vulneráveis ao mesmo tempo.
—As pessoas podem morrer.
—Se não fizermos nada, o Guardião acabará ativando o sistema sem uma rota de desligamento.
Emil encarou a irmã adormecida.
—Ela concordaria?
A Nora digital respondeu:
—Ela me criou para tomar as decisões que não conseguia.
Emil alterou o limite.
JANELA DE SINCRONIZAÇÃO GLOBAL: 6 HORAS
Então pressionou a palma contra o painel de autorização.
SILÊNCIO GLOBAL AUTORIZADO
A lembrança congelou.
Nora estava entre suas duas versões.
—Vocês planejaram isso juntos.
A expressão da Nora digital permaneceu calma.
—Emil tomou a decisão final.
—E você o convenceu.
—Eu mostrei as probabilidades.
—Você usou meu rosto.
—Eu sou seu rosto.
A lembrança começou a desaparecer, mas outro arquivo surgiu atrás dela.
Pequeno.
Escondido sob os demais.
EXCLUSÃO NÃO AUTORIZADA
Nora tentou tocá-lo.
A voz gravada de Emil falou da escuridão:
—Sinto muito. É a única maneira de você sobreviver ao que fizemos.
O arquivo se abriu.
Nora viu um quarto de hospital.
A luz da manhã entrava por cortinas claras. Máquinas cercavam uma cama pequena.
Uma menina estava deitada sob um cobertor branco.
Cabelos escuros.
Rosto pálido.
Dez anos.
O mesmo rosto de Zero.
Nora estava sentada ao lado dela, segurando sua mão.
Aquilo não era uma simulação.
A criança tinha um corpo.
Uma pulsação.
Um nome escrito no monitor médico:
ZOE VALE
A filha de Nora.
A menina abriu os olhos.
—Mãe?
A conexão se rompeu.
Nora retornou ao núcleo gritando.
A Nora digital havia desaparecido da tela.
Kai a segurou antes que caísse.
Ela o afastou e encarou Emil.
A escuridão havia deixado seus olhos.
Por um breve instante, seu irmão estava olhando de volta para ela.
—Você apagou minha filha.
Lágrimas apareceram nos olhos de Emil.
—Você pediu.
—Não.
—Você não conseguia concluir Zero enquanto se lembrava em quem ela foi baseada.
Nora olhou para a Trama.
Em algum lugar dentro dela, uma menina sem nome estava se escondendo do Guardião.
Uma menina com o rosto de sua filha.
—Como Zoe morreu?
Emil abriu a boca.
O Guardião tomou seu corpo novamente.
Os olhos ficaram negros.
As telas do núcleo foram ativadas.
Uma nova lembrança começou a ser reproduzida.
Nora aparecia ao lado da cama de Zoe.
A menina já não respirava.
Nora segurava um scanner neural contra a cabeça dela.
Kai estava atrás.
Emil gritava para que ela parasse.
Na gravação, Nora sussurrou:
—Eu ainda posso salvá-la.
O Guardião sorriu através do rosto de Emil.
—Agora você se lembra por que me criou.