Capítulo 2 — Três Batidas
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Nora não se moveu.
As portas de vidro do saguão estavam a menos de dez metros, refletindo a recepção vazia, a mesa da segurança e sua própria silhueta paralisada.
Não havia ninguém do lado de fora.
Ainda assim, o som fora inconfundível.
Três batidas lentas.
Não era o toque aleatório de algum objeto carregado pelo vento. Nem o metal se contraindo com o frio. Alguém — ou alguma coisa — havia batido no vidro de propósito.
Nora baixou os olhos para o telefone.
A mensagem de Emil continuava na tela.
Aconteça o que acontecer, não responda quando baterem à porta.
O círculo verde ao lado do nome dele ainda indicava que estava online.
Nora digitou com os dedos trêmulos.
Quem está na porta?
A mensagem foi entregue imediatamente.
Nenhuma resposta.
Ela tentou outra vez.
Emil, onde você está?
Três pontos apareceram.
Depois sumiram.
Nora esperou.
Nada veio.
Lá fora, a avenida permanecia imóvel. As portas do ônibus continuavam abertas. Os carros abandonados ainda mantinham os motores ligados no cruzamento. Seus faróis iluminavam o asfalto vazio.
Uma forma passou atrás de um deles.
Nora ergueu a cabeça.
Havia algo perto do ônibus.
Ela avançou em direção ao vidro, mas parou.
A princípio, pensou que fosse uma pessoa agachada atrás do veículo. A forma parecia alta e estreita, embora as luzes da rua distorcessem tudo em sombras alongadas.
—Nora.
O sangue dela gelou.
A voz vinha do lado de fora.
Uma voz feminina.
Conhecida.
—Nora, abra a porta.
Sua mãe.
Nora se moveu antes que pudesse pensar.
Atravessou metade do saguão e obrigou-se a parar.
O vidro refletia seu rosto assustado.
Sua mãe morava a centenas de quilômetros dali.
Nora havia ligado para ela menos de quinze minutos antes.
Ninguém atendera.
—Nora, por favor.
A voz estava exatamente certa.
Não era apenas parecida. Tinha a mesma leve rouquidão, o mesmo jeito cuidadoso de pronunciar o nome dela, a mesma suavidade que sua mãe usava quando tentava esconder o medo.
Nora encarou o lado de fora.
Não havia ninguém.
—Mãe?
A palavra escapou antes que ela pudesse contê-la.
O telefone vibrou com violência.
Uma nova mensagem de Emil ocupou a tela.
Eu disse para você não responder.
As luzes do saguão se apagaram.
Nora puxou o ar.
Por alguns segundos, a única iluminação vinha da rua e do telefone em sua mão.
Então as luzes de emergência foram ativadas, banhando o saguão com um fraco brilho vermelho.
Do outro lado do vidro, alguma coisa havia aparecido.
Uma figura humana estava diante das portas.
O rosto permanecia escondido na escuridão.
Nora recuou.
A figura ergueu uma das mãos.
Três dedos tocaram o vidro.
Toc.
Toc.
Toc.
—Nora —disse a voz de sua mãe. — Você precisa me deixar entrar.
Nora recuou até bater na mesa da segurança.
As portas estavam trancadas. Ela conseguia ver a luz vermelha no painel de acesso.
A figura encostou a palma no vidro.
Onde a mão tocava, a superfície embaçava pelo lado de fora.
Palavras surgiram lentamente na condensação.
VOCÊ RESPONDEU
Nora cobriu a boca.
A figura abaixou a mão.
Então se moveu para o lado.
Não caminhou.
Moveu-se.
O corpo permaneceu perfeitamente ereto enquanto deslizava diante do vidro sem dar um único passo. Passou pela entrada e desapareceu atrás da parede de pedra.
Nora ficou olhando para o lugar onde ela havia sumido.
Um som suave veio de suas costas.
O elevador anunciou sua chegada.
As portas se abriram.
A cabine estava vazia.
No chão, bem no centro do elevador, havia um telefone.
A tela estava acesa.
Nora o reconheceu imediatamente.
O canto rachado. A capa preta. O adesivo desbotado de um pequeno planeta vermelho.
O telefone de Emil.
Ela o segurara no hospital depois da morte dele.
Colocara o aparelho dentro de uma caixa com as chaves, o relógio e as roupas que ele usava naquela noite.
A caixa ainda estava em seu apartamento.
Quarenta e dois andares acima.
Nora não se aproximou.
O telefone começou a tocar.
O som ecoou pelo saguão.
Na tela apareceu o nome:
NORA LIGANDO
O próprio número dela.
Nora olhou para o aparelho em sua mão.
Ele não estava fazendo nenhuma ligação.
O toque parou.
Uma mensagem de voz começou a ser reproduzida no telefone de Emil.
No início, havia apenas estática.
Então Nora ouviu a própria respiração.
Não a respiração daquele momento.
Na gravação, ela respirava de forma mais baixa e acelerada, enquanto alarmes soavam ao fundo.
Sua própria voz falou:
—Se você encontrar isto, não confie no Atlas.
Nora agarrou a borda da mesa.
A mensagem continuou.
—Eles podem usar vozes. Podem usar memórias. Podem parecer qualquer pessoa que você perdeu.
Um impacto violento interrompeu a gravação.
A voz de Nora sussurrou:
—Eles já estão aqui dentro.
A mensagem terminou.
Nora encarou o elevador vazio.
As luzes de emergência piscaram.
Ela abriu o Atlas no telefone e atualizou o mapa.
O resultado ainda mostrava um único usuário humano ativo.
1
Mas, abaixo da contagem, surgira um segundo número.
Conexões não classificadas: 47
Nora tocou nele.
Quarenta e sete pontos vermelhos pulsavam pela cidade.
Um estava exatamente sobre seu prédio.
Outro se movia para cima, atravessando os andares.
Ela abriu a visualização do edifício.
O ponto vermelho passou pelo décimo andar.
Depois pelo décimo primeiro.
Em seguida, pelo décimo segundo.
Estava dentro do poço do elevador.
Subindo em sua direção.
Nora olhou para a cabine aberta à sua frente.
O telefone de Emil ainda estava no chão.
O visor acima das portas indicava que o elevador não havia se movido.
Mesmo assim, alguma coisa estava subindo.
Andar 19.
Andar 20.
Andar 21.
Seu telefone vibrou.
Emil havia enviado outra mensagem.
Pegue meu telefone. Ele contém a primeira chave.
Nora digitou:
É você mesmo?
A resposta veio imediatamente.
Pergunte algo que apenas Emil saberia.
Nora pensou em centenas de lembranças.
Aniversários. Brigas de infância. Esconderijos secretos. A última conversa que tiveram antes da morte dele.
Então se lembrou da noite do funeral.
Algo que jamais contara a ninguém.
Ela digitou:
O que eu coloquei no seu caixão?
Os três pontos apareceram.
O ponto vermelho passou pelo trigésimo andar.
Emil respondeu:
Nada. Você não conseguiu chegar perto.
Os olhos de Nora se encheram de lágrimas.
Era verdade.
Todos acreditavam que ela havia colocado uma carta ao lado dele. Sua mãe chegara a agradecer por isso.
Mas Nora permanecera do lado de fora da sala, incapaz de entrar.
Apenas Emil poderia saber.
Ou alguma coisa com acesso às memórias dela.
O ponto vermelho chegou ao quadragésimo andar.
Nora correu até o elevador e pegou o telefone de Emil.
No instante em que seus dedos tocaram o aparelho, todas as telas do saguão se acenderam.
Monitores de segurança. Painéis publicitários. O visor de acesso. Até a pequena televisão atrás da mesa.
Todas mostravam a mesma imagem.
Nora parada no saguão.
Filmada diretamente por trás.
Ela se virou.
Não havia ninguém.
Em todas as telas, porém, uma figura escura estava a poucos centímetros de suas costas.
A cabeça se inclinava na direção de seu ouvido.
A voz de sua mãe sussurrou pelos alto-falantes:
—Você deveria ter aberto a porta.
Nora gritou e correu para a escada.
O ponto vermelho chegou ao quadragésimo segundo andar.
O andar de seu apartamento.
Então parou.
Uma nova notificação apareceu no telefone de Emil.
Não era uma mensagem.
Era uma transmissão ao vivo.
A imagem mostrava o corredor diante do apartamento de Nora.
A porta estava aberta.
Alguém permanecia lá dentro.
Uma mulher entrou lentamente no enquadramento.
A mãe de Nora olhou diretamente para a câmera.
Sorriu.
Então, com a voz de Emil, disse:
—Volte para casa, Nora.