Capítulo 3 — A Cidade Imóvel
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Nora observou a mãe sorrir na tela.
A transmissão ao vivo mostrava o corredor diante de seu apartamento. A porta estava aberta, e a mulher lá dentro parecia exatamente como Nora se lembrava dela naquela manhã: cabelos com mechas grisalhas presos atrás da cabeça, suéter azul-claro e um pequeno pingente dourado sobre o peito.
Mas a voz que saiu de sua boca pertencia a Emil.
—Volte para casa, Nora.
O polegar de Nora pairou sobre a tela.
—Mãe?
O sorriso da mulher se alargou.
Por uma fração de segundo, seu rosto mudou.
Os olhos permaneceram fixos, mas a pele ao redor deles pareceu ondular, como se outra expressão tentasse sair de baixo daquela aparência.
A transmissão terminou.
A tela ficou preta.
Uma nova mensagem apareceu.
CONEXÃO AO VIVO PERDIDA
Acima de Nora, em algum lugar do quadragésimo segundo andar, algo pesado atingiu o chão.
Uma vez.
Depois, outra.
Começou a se mover em direção à escada.
Nora atravessou a porta de emergência e entrou no corredor de serviço atrás do saguão. As luzes vermelhas pulsavam acima de sua cabeça. Canos vibravam dentro das paredes enquanto ela corria para a garagem subterrânea.
O telefone de Emil vibrou em sua mão.
A tela de bloqueio havia desaparecido.
Não havia aplicativos, contatos ou fotografias. Apenas um fundo preto e o contorno de uma chave branca.
Abaixo dela, uma mensagem dizia:
PRIMEIRA CHAVE DETECTADA
Um mapa do edifício apareceu.
Uma linha azul e fina traçava uma rota da posição de Nora até a garagem e continuava por um túnel de manutenção restrito sob a avenida.
No fim do trajeto, uma única palavra piscava.
SAIA
Nora chegou a uma porta de aço.
Não havia maçaneta do lado em que estava, apenas um painel eletrônico que normalmente exigia um crachá de funcionário.
Ela aproximou o telefone de Emil.
A chave branca girou.
O painel ficou verde.
A fechadura se abriu.
Atrás dela, a porta da escada bateu contra a parede.
Nora não olhou para trás.
Passou pela porta de segurança e a puxou. A fechadura se ativou no momento em que alguma coisa atingiu o outro lado.
O metal se curvou para dentro.
Uma voz feminina sussurrou através da porta.
—Nora, você esqueceu o casaco.
Sua mãe dissera a mesma frase em todos os invernos de sua infância.
O aço tremeu com outro impacto.
Nora correu.
O corredor descia por uma inclinação acentuada e se abria na garagem subterrânea do prédio. Metade das luzes estava apagada. As restantes piscavam sobre as fileiras de carros.
Um motor estava ligado em algum lugar próximo.
Ela avançou entre as colunas de concreto, tentando não fazer barulho.
—Olá?
Nenhuma resposta.
O motor pertencia a um carro cinza parado no meio de uma manobra para sair da vaga.
A porta do motorista estava aberta.
Um homem permanecia em pé ao lado dela.
Nora quase gritou.
Era Pavel, um dos seguranças do turno da noite. A mão esquerda segurava a porta aberta. O braço direito estava erguido diante do rosto, como se ele tivesse tentado se proteger.
Não se movia.
—Pavel?
Nora se aproximou com cuidado.
Os olhos dele estavam abertos.
A princípio, ela pensou que estivesse morto.
Então o olhar se moveu em sua direção.
Apenas os olhos se mexiam.
As pupilas a acompanharam enquanto ela se aproximava.
—Meu Deus.
Nora tocou o pulso dele.
A pele estava quente.
Uma pulsação acelerada batia sob seus dedos.
Pavel estava vivo.
Respirava tão devagar que o peito mal se movia.
—Você consegue me ouvir?
Os olhos dele se fixaram nos dela.
—Pisque uma vez para dizer sim.
Pavel piscou.
A boca de Nora ficou seca.
—Você consegue se mexer?
Duas piscadas.
Não.
—Você viu o que aconteceu?
Uma piscada.
—Foi aquela coisa que estava lá em cima?
Os olhos de Pavel se arregalaram.
Duas piscadas.
—Não?
Uma piscada.
Nora tentou novamente.
—Foi outra coisa?
Uma piscada.
Uma lágrima se acumulou no canto do olho de Pavel e escorreu por seu rosto.
O telefone dele estava sobre o banco do motorista.
A tela exibia um vídeo congelado de uma plataforma de trem lotada. Todas as pessoas estavam completamente imóveis.
Na parte superior havia uma marca de tempo.
00:00:00
Nora pegou o telefone.
O vídeo estava sendo transmitido ao vivo.
Ela percebeu pequenos movimentos: um casaco agitado pela ventilação, um papel deslizando pelo chão, uma lâmpada defeituosa piscando.
As pessoas não se moviam.
Uma delas olhou diretamente para a câmera.
Nora soltou o telefone sobre o banco.
O olhar de Pavel se desviou rapidamente para a saída da garagem.
Um aviso.
No corredor, a porta de segurança de aço gemeu.
O centro dela se projetou para fora.
Uma vez.
Duas.
Nora olhou para Pavel.
—Eu vou voltar para buscar você.
Os olhos dele se abriram em pânico.
Duas piscadas.
Não.
—Você quer que eu vá embora?
Uma piscada.
A porta começou a se soltar da estrutura.
Nora correu para o túnel de manutenção.
Quando chegou à entrada, Pavel produziu um som atrás dela.
Era pouco mais do que ar passando por sua garganta.
Mas ela ouviu.
—Não… deixe… que…
Nora se virou.
Os lábios de Pavel haviam se movido menos de um centímetro.
—Não deixe que façam o quê?
A mandíbula dele tremeu.
—…ouçam você.
A porta de aço foi arrancada.
As luzes de emergência da garagem se apagaram uma após a outra.
Nora entrou no túnel.
Não correu.
Obrigou-se a caminhar em silêncio enquanto a escuridão engolia a garagem atrás dela.
Seu telefone mostrava um ponto vermelho entrando no nível subterrâneo.
Ele parou ao lado de Pavel.
Durante alguns segundos, nada aconteceu.
Então o pulso de Pavel desapareceu do sistema de emergências médicas do prédio.
Nora cobriu a boca e continuou avançando.
O túnel terminava diante de um portão de serviço trancado sob a avenida. O telefone de Emil o abriu.
O ar frio da noite entrou.
Nora saiu.
A cidade já não estava vazia.
A princípio, ela viu apenas um homem parado ao lado de uma banca de jornais.
Depois percebeu a mulher próxima à faixa de pedestres.
Um ciclista permanecia montado em sua bicicleta no meio da rua.
Uma menina estava ao lado de uma mochila caída.
Mais adiante, figuras ocupavam as calçadas, os pontos de ônibus, as entradas das lojas, as sacadas e os cruzamentos.
Dezenas.
Centenas.
Todas imóveis.
Nora girou lentamente.
As pessoas estiveram ali o tempo inteiro.
Ela apenas não conseguira vê-las do saguão.
Algumas estavam nas sombras. Outras permaneciam dentro de veículos ou junto às entradas dos prédios. Um ônibus que parecera vazio estava lotado de passageiros congelados abaixo do nível das janelas.
Todos os rostos estavam acordados.
Os olhos seguiram Nora quando ela entrou na avenida.
Um homem segurava o telefone a poucos centímetros do rosto, com o polegar suspenso sobre a tela. Uma mulher permanecia inclinada sobre um carrinho, incapaz de alcançar o bebê que chorava lá dentro. Um entregador estava com um dos pés acima do chão, preso no meio de um passo.
A menina ao lado da mochila não parecia ter mais de oito anos.
Lágrimas escorriam por seu rosto.
Nora se aproximou.
—Vai ficar tudo bem —sussurrou, embora soubesse que não era verdade.
Os olhos da menina se moveram em direção ao céu.
Um zumbido mecânico percorreu os prédios.
Nora ergueu o olhar.
Alguma coisa voava sobre a avenida.
Era grande demais para ser um drone comercial e silenciosa demais para ser uma aeronave. Uma forma negra se movia sob as nuvens, escondendo as estrelas por onde passava.
Um feixe estreito de luz branca desceu dela.
A luz percorreu os edifícios.
Todas as pessoas imóveis baixaram os olhos ao mesmo tempo.
Nora compreendeu.
Parou de se mover.
O feixe atravessou a avenida.
Passou sobre o ciclista.
Sobre a mulher junto ao carrinho.
Sobre a menina que chorava.
Então chegou a Nora.
Seus músculos gritavam para que corresse.
Ela permaneceu imóvel.
A luz parou sobre seu corpo.
O telefone de Emil vibrou.
O som pareceu ensurdecedor.
Uma mensagem surgiu na tela.
NÃO SE MOVA
Nora prendeu a respiração.
O feixe permaneceu fixo.
Do objeto negro veio um coro de vozes.
Centenas delas, sobrepostas.
Pais chamando filhos.
Amantes chamando uns aos outros.
Pessoas implorando por ajuda.
Então Nora ouviu Emil.
—Nora, olhe para mim.
Ela manteve os olhos voltados para a frente.
—Por favor —disse a voz dele. — Estou com medo.
A luz se intensificou.
A menina ao lado da mochila gemeu.
O som foi minúsculo.
Foi suficiente.
O feixe se afastou de Nora e se concentrou sobre a criança.
Os olhos da menina se encheram de pânico.
—Não —sussurrou Nora.
A forma negra desceu.
Uma abertura circular apareceu em sua parte inferior.
O ar ao redor da criança começou a ondular.
Nora se moveu.
Lançou-se sobre a menina e envolveu o corpo imóvel com os dois braços.
A luz atingiu as duas.
Por um instante, a cidade desapareceu.
Nora viu milhões de pessoas dentro de um espaço branco e imenso.
Elas estavam em fileiras intermináveis, incapazes de se mover.
Fios finos de luz saíam de suas cabeças e se uniam a uma estrutura luminosa acima delas.
No centro estava Emil.
Parecia mais velho do que no dia em que morreu.
Seus olhos eram negros.
Ele olhou diretamente para Nora.
—Você não deveria ter acordado —disse.
A visão terminou.
Nora caiu sobre o asfalto, ainda abraçada à menina.
O objeto sobre a cidade emitiu um som agudo.
Ao redor delas, as pessoas imóveis abriram a boca ao mesmo tempo.
Um único som saiu de centenas de gargantas.
—Nora.
Ela soltou a menina e recuou, cambaleando.
Todos os rostos haviam se voltado em sua direção.
Todos os olhos a seguiam.
A forma negra começou a descer novamente.
Nora correu.
Atravessou a avenida, desviando dos corpos imóveis enquanto o feixe branco a procurava por trás.
O telefone de Emil exibia o mapa.
O número de sessões humanas ativas continuava sendo:
1
Então o contador mudou.
2
Nora parou sob a proteção de um viaduto.
Um segundo ponto verde havia surgido do outro lado da cidade.
Ele estava se movendo.
Rápido.
Seu telefone recebeu uma mensagem de uma conta desconhecida.
Nora Vale, eu sei que você consegue ver isto.
Uma segunda mensagem chegou.
Meu nome é Kai. Eu ainda estou vivo.
Nora encarou o ponto verde.
Então veio a terceira mensagem.
Seu irmão sabia que o Silêncio aconteceria.
Antes que ela pudesse responder, outra linha apareceu.
Porque Emil ajudou a criá-lo.