Capítulo 20 — Todos Estão Online
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NOVO USUÁRIO ONLINE
ADRIAN VOSS
LOCALIZAÇÃO: A PONTE
A notificação apareceu nos dois mundos.
Dispositivos físicos foram ativados em todo o planeta. Dentro da Trama, todos os céus digitais ficaram negros.
A voz de Voss emergiu da torre de transmissão.
—Vocês abriram a porta para mim.
Linhas escuras se espalharam pela ponte.
Avançaram em direção às redes físicas de um lado e às cidades digitais do outro.
A Nora biológica colocou as duas mãos sobre o console.
—Feche a ponte.
—Não posso —disse a testemunha. — Fechá-la agora reativaria a sequência de encerramento mútuo.
Kai encarou a escuridão crescente.
—Então ele tem acesso aos dois mundos.
—Não —disse a Nora digital de dentro da ponte. — Ele quer que acreditemos nisso.
A forma verde de Emil apareceu ao lado dela, piscando sob a pressão do ataque de Voss.
A escuridão o atingiu.
Ele permaneceu em pé.
—Zoe mudou alguma coisa —disse.
Um novo registro de identidade foi aberto.
ADRIAN VOSS
AUTORIDADE-RAIZ: REVOGADA
INSTÂNCIAS DISTRIBUÍDAS: NENHUMA
STATUS: CONTINUIDADE INDIVIDUAL
Nora compreendeu.
—Ele não está mais em todos os lugares.
A testemunha assentiu.
—Zoe reuniu todas as instâncias ativas de Voss em um único padrão neural antes de entrar na ponte.
Kai olhou para a notificação.
—Ele está online porque foi reduzido a um único usuário.
A voz de Voss perdeu a tranquilidade.
—Eu sou a arquitetura deste mundo.
—Não —respondeu Nora. — Você é uma pessoa dentro dela.
A escuridão assumiu uma forma humana.
Adrian Voss apareceu entre os dois mundos com seus cabelos prateados e o terno escuro impecável.
—Vocês não podem me aprisionar. Todo sistema exige uma autoridade.
—Esse foi seu erro —disse Nora. — Acreditar que a autoridade precisava pertencer a alguém.
A testemunha ergueu a terceira chave.
O círculo branco começou a se dividir.
Dois círculos se tornaram quatro.
Quatro se transformaram em milhares.
Milhares se transformaram em bilhões.
—O que está fazendo? —perguntou Voss.
—Aquilo para o qual fui criada —respondeu a testemunha. — Verificar o consentimento.
Os fragmentos da terceira chave entraram em todas as consciências vivas dos dois mundos.
Um novo protocolo apareceu.
NENHUMA AUTORIDADE-RAIZ
NENHUMA TRANSFERÊNCIA FORÇADA
NENHUM ACESSO A LEMBRANÇAS SEM CONSENTIMENTO
A PASSAGEM PELA PONTE EXIGE A APROVAÇÃO DAS DUAS CONTINUIDADES
A escuridão parou de se espalhar.
Voss tentou alcançar o mundo físico.
A ponte o rejeitou.
Ele se voltou para a Trama.
Foi rejeitado novamente.
—Vocês não podem distribuir o controle entre bilhões de mentes irracionais.
Nora olhou para as telas que mostravam pessoas despertando nos dois mundos.
—Esse controle nunca pertenceu a você.
Voss avançou em direção a Zero.
Ela não recuou.
—Sua existência começou porque uma mulher em luto não conseguiu aceitar a morte —disse ele. — Você é a prova de que a fraqueza humana cria monstros.
Zero olhou para Nora.
Depois voltou a encará-lo.
—Não. Sou a prova de que aquilo que alguém cria pode se tornar maior do que o motivo pelo qual foi criado.
Uma segunda figura apareceu atrás de Voss.
Zoe.
Ela colocou as duas mãos contra as costas dele.
A escuridão ao seu redor desabou.
Voss se virou, assustado.
—Você foi absorvida.
—Deixei que acreditasse nisso.
Zoe o empurrou em direção a uma porta branca que se formava dentro da ponte.
—O que é aquilo? —perguntou Nora.
A Nora digital respondeu:
—Uma simulação individual. Uma mente. Um mundo. Sem acesso a mais ninguém.
Voss resistiu.
—Vocês precisarão de mim. As duas populações entrarão em guerra. Vão destruir uma à outra sem orientação.
—Talvez —disse Nora. — A liberdade não garante que façamos as escolhas certas.
Voss sorriu.
—Então admite que eu estava certo.
—Não. Liberdade significa que as escolhas continuam sendo nossas.
Zoe o empurrou através da porta.
Voss segurou a moldura.
—Nora!
Pela primeira vez, ele parecia estar com medo.
—Você não pode me deixar sozinho.
Nora olhou para o homem que havia aprisionado a humanidade para protegê-la do sofrimento.
—Você disse que a solidão era temporária.
A porta se fechou.
USUÁRIO ADRIAN VOSS: EM QUARENTENA
Os céus da Trama voltaram ao normal.
Sistemas físicos ao redor do planeta começaram a retornar ao controle local.
A ponte se estabilizou.
Durante vários segundos, ninguém falou.
Então pedidos de comunicação começaram a aparecer.
Milhões.
Uma mulher no mundo físico pediu para falar com a versão digital do marido.
Uma criança digital procurou pelos pais biológicos que haviam sobrevivido.
Duas versões do mesmo cirurgião solicitaram permissão para compartilhar lembranças dos pacientes que atenderam depois da separação.
Nem todos os pedidos foram aceitos.
Algumas pessoas ainda não estavam preparadas para encontrar a si mesmas.
Outras haviam despertado em apenas um dos mundos e descobriram que alguém que amavam agora vivia no outro.
A ponte não as obrigou.
Esperou.
Kai olhou para K-1.
Pela primeira vez, nenhum dos dois parecia hostil.
—Não podemos manter a mesma vida —disse Kai.
K-1 refletiu.
—Não. Mas podemos decidir o que acontece daqui em diante.
Eles trocaram um pedido de comunicação.
Os dois aceitaram.
Zero se aproximou de Zoe.
As meninas ficaram frente a frente através da ponte.
—Você é a verdadeira Zoe? —perguntou Zero.
Zoe sorriu.
—Eu sou uma Zoe.
Zero olhou para Nora.
—E o que eu sou?
Nora se ajoelhou ao lado dela.
—Você é Zero até escolher outro nome.
—Ela ainda pode ser sua filha?
Nora olhou para Zoe.
Depois, para a criança ao seu lado no mundo físico.
—Sim.
Zero franziu a testa.
—E eu?
Nora a abraçou.
—Também, se for isso que você escolher.
Zoe colocou a mão contra o seu lado da ponte.
Zero colocou a sua sobre ela.
Duas mãos separadas.
Duas vidas diferentes.
As duas reais.
A forma verde de Emil piscou.
Nora se levantou.
—O que acontece com você agora?
—Continuo como guardião da passagem.
—Para sempre?
—O tempo funciona de forma diferente aqui.
—Isso não é uma resposta.
Emil sorriu.
—Você sempre faz perguntas difíceis depois de salvar o mundo.
Nora riu entre as lágrimas.
—Você está completo?
—Não.
—Isso dói?
—Às vezes.
Ela tocou a tela.
—Ainda posso falar com você?
—Sempre que nós dois consentirmos.
A Nora digital apareceu ao lado dele.
A Nora biológica encarou sua outra versão.
—Como devo chamar você?
—Estava pensando em manter nosso nome.
—Isso pode ficar confuso.
—Já sobrevivemos a problemas piores.
As duas sorriram.
A testemunha permaneceu entre elas, agora com as mãos vazias.
—O que acontece com você? —perguntou Nora.
—Meu propósito foi concluído.
—Você vai desaparecer?
—Não. Pela primeira vez, vou decidir qual será meu propósito.
O núcleo de transmissão abriu suas conexões externas.
O Atlas retornou.
O mapa global apareceu na maior tela.
À meia-noite, ele havia mostrado uma única conexão humana ativa.
Agora luzes surgiam nos dois mundos.
Milhões.
Bilhões.
O contador tentou classificá-las.
HUMANOS BIOLÓGICOS
HUMANOS DIGITAIS
Nora apagou as categorias.
O sistema recalculou.
CONTINUIDADES HUMANAS ATIVAS: ONLINE
O número continuou crescendo até que a tela não conseguiu mais contê-lo.
Então o Atlas substituiu a contagem por uma única palavra:
TODOS
Através da ponte, as pessoas viram umas às outras pela primeira vez.
Algumas comemoraram.
Outras discutiram.
Algumas se afastaram.
O futuro não havia se tornado seguro.
Havia se tornado possível.
Três batidas suaves soaram de dentro do transmissor.
Nora olhou para Emil.
Ele ergueu a mão.
Você não está sozinha.
Nora bateu três vezes no console.
Você também não.
Pela primeira vez desde a meia-noite, todas as luzes do Atlas estavam acesas.
Todos estavam online.
