OrivviA Última Pessoa Online
Chapter 5 / 20

Capítulo 5 — As Coordenadas

9.6 min read

Disclosure: Orivvi may earn a commission from this recommendation at no additional cost to you.

A mulher na tela tinha o rosto de Nora.

Os mesmos olhos. A mesma boca. A mesma pequena cicatriz sob o queixo.

Mas não havia nada familiar na forma como ela olhava para a câmera.

Vestia um jaleco branco sobre roupas escuras. Os cabelos estavam mais curtos, e sensores metálicos finos acompanhavam a curva de suas têmporas. Atrás dela, do outro lado de uma parede de vidro, pessoas se moviam entre máquinas iluminadas.

A gravação continuou.

—Se você está assistindo a isto, Emil não conseguiu me deter.

Nora sentiu Kai observando-a.

—Deter você de fazer o quê? —sussurrou.

A mulher no vídeo respondeu como se tivesse ouvido.

—De apagar a mim mesma.

Nora esqueceu as vozes que se acumulavam do lado de fora do trem.

Sua versão gravada se inclinou em direção à câmera.

—O procedimento removerá meu acesso ao Protocolo, ao projeto e a todos os envolvidos. Também poderá danificar memórias não relacionadas. Eu aceitei esse risco.

Sua voz permanecia calma, mas as mãos tremiam.

—A rede pode extrair informações de qualquer mente conectada. Arquivos podem ser roubados. Códigos podem ser copiados. Pessoas podem ser imitadas. O único lugar seguro para esconder a autorização final é dentro de um cérebro que já não saiba que a possui.

Nora olhou para Kai.

—A terceira chave —disse ele.

Na tela, a doutora Nora Vale continuou:

—Dividi a autorização em três chaves. A primeira controla a infraestrutura física. A segunda restaura o acesso privilegiado. A terceira existe como um padrão dentro da minha arquitetura neural.

Nora tocou a lateral da cabeça.

Um padrão dentro dela.

Não um dispositivo. Não uma senha.

Parte de seu cérebro.

—Se o Silêncio for ativado globalmente —disse a gravação —, as duas primeiras chaves revelarão as coordenadas da instalação original. Vá até lá. A terceira chave só poderá ser recuperada dentro da câmara principal.

Um impacto violento atingiu a lateral do trem.

A parede de metal se curvou para dentro.

Kai segurou a borda de um banco.

—Eles estão na plataforma.

Do lado de fora, dezenas de vozes sussurravam ao mesmo tempo.

—Nora.

A gravação não parou.

—Um aviso —disse a doutora Vale. — A Trama pode criar réplicas a partir de memórias armazenadas. Elas parecerão reais. Talvez até acreditem que são reais.

As luzes do trem piscaram.

No vidro escuro ao lado de Nora, surgiu o reflexo de Emil.

Ele estava atrás dela, coberto de sangue.

Nora se virou.

Não havia ninguém.

O reflexo permaneceu.

—Não escute essa mulher —disse.

Nora se afastou do vidro.

A Nora gravada olhou diretamente para a câmera.

—Se Emil falar através da rede, não presuma que seja meu irmão.

O reflexo de Emil sorriu.

As janelas do trem explodiram.

Partículas negras entraram pelos vidros quebrados como fumaça avançando contra o vento. Elas se reuniram no corredor, formando braços, rostos e corpos que nunca chegavam a se completar.

Kai pressionou o cartão transparente contra o telefone de Emil.

—Precisamos das coordenadas agora.

A tela mostrou as duas chaves cruzadas.

AUTORIDADE PARCIALMENTE RESTAURADA

DESCRIPTOGRAFIA DAS COORDENADAS: 11%

As portas do trem começaram a se abrir.

Mãos surgiram pela fresta.

Algumas pertenciam a adultos.

Outras, a crianças.

Todas eram feitas de escuridão.

Nora bateu com a palma nos controles das portas.

Nada aconteceu.

—O trem está sem energia —disse Kai.

—Então por que as luzes estão acesas?

—A rede da estação está controlando tudo.

As portas se abriram mais alguns centímetros.

O rosto de uma mulher surgiu entre elas.

A mãe de Nora.

—Por favor —sussurrou. — Está doendo.

Nora avançou em sua direção.

Kai segurou seu pulso.

—Essa não é sua mãe.

—Você não sabe.

—Sei que o corpo dela está a centenas de quilômetros e congelado como todos os outros.

O rosto entre as portas mudou.

Por um instante, tornou-se Emil.

Depois, Pavel.

Depois, a menina que chorava na avenida.

Então, a própria Nora.

A boca se abriu mais do que uma mandíbula humana deveria permitir.

Kai puxou Nora para trás.

As portas foram escancaradas.

Nora pressionou o telefone de Emil contra o chão do trem.

A primeira chave girou.

Um pulso atravessou o vagão.

As figuras negras se dissolveram, mas apenas por um instante.

REDE LOCAL DESCONECTADA: 60 SEGUNDOS

As luzes se apagaram.

Kai apontou para a parte da frente do trem.

—Cabine do maquinista.

Eles correram.

O vagão antigo tremia enquanto as partículas escuras começavam a se reunir novamente. Nora passou por cima de bancos caídos e forçou a porta da cabine.

O painel de controle estava apagado.

Uma abertura circular ocupava o centro do console.

Tinha o mesmo tamanho do telefone de Emil.

Nora encaixou o aparelho.

A primeira chave apareceu em todos os painéis.

ACESSO À INFRAESTRUTURA CONFIRMADO

O trem ganhou vida.

Luzes se acenderam pelo teto. Motores gemeram sob o piso. Um mapa de rotas surgiu acima do para-brisa, mostrando antigas linhas de manutenção sob a cidade.

Kai caiu no banco ao lado dela.

—Você sabe dirigir isto?

—Achei que você construísse redes neurais.

—Construía. Trens eram a obsessão de Emil.

O contador da reconexão chegou a dez segundos.

Nora selecionou a única rota marcada em azul.

Um aviso apareceu.

VIA NÃO LIBERADA

PARTIDA MANUAL PODE CAUSAR COLISÃO FATAL

Atrás deles, as vozes retornaram.

—Nora.

Kai olhou para a porta da cabine.

—Vá.

Nora pressionou o controle.

O trem avançou bruscamente.

Alguma coisa gritou sob as rodas.

A plataforma desapareceu na escuridão quando entraram no túnel. Formas negras corriam ao lado do trem, movendo-se pelas paredes e pelo teto sem perder velocidade.

O trem acelerou.

As formas o acompanharam.

Uma delas alcançou o para-brisa e se espalhou sobre o vidro.

O rosto de Emil surgiu nela.

—Nora, pare.

Ela manteve os olhos nos trilhos.

—Você me abandonou —disse o rosto.

As palavras a atingiram com mais força do que esperava.

Nora apertou os controles.

Na última vez em que vira Emil vivo, eles haviam discutido.

Ela se lembrava apenas de fragmentos: chuva batendo em uma janela, uma xícara quebrada no chão, Emil gritando que ela não compreendia o que havia feito.

Então ele saíra.

Horas depois, a polícia ligou.

Kai acionou o sistema de limpeza do para-brisa. Um jato de líquido químico atingiu o vidro.

O rosto de Emil se dissolveu em correntes negras.

—O que aconteceu na noite em que ele morreu? —perguntou Nora.

—Este não é o momento.

—Pode ser o único momento.

Kai olhou para ela.

O corte acima de sua sobrancelha havia se aberto novamente. Sangue escorria pela lateral do rosto.

—Ele me ligou da instalação principal —disse Kai. — Havia descoberto que alguém preparava uma ativação global.

—Quem?

—Não sei. As ordens estavam escondidas atrás das credenciais dele.

—As credenciais de Emil?

—As suas.

Nora o encarou.

Kai continuou antes que ela pudesse falar.

—Emil acreditava que seu acesso havia sido copiado antes do procedimento de memória. Foi destruir os registros centrais de autorização.

—E você?

—Ele pediu que eu pegasse a segunda chave e fosse embora.

—Você o deixou lá.

—Ele trancou a câmara pelo lado de dentro.

Nora ouviu a acusação feita na clínica.

Ele me abandonou.

Kai encarou o túnel.

—Passei dezoito meses me perguntando se deveria ter ficado.

—Você o viu morrer?

—Vi a instalação desabar.

—Não é a mesma coisa.

—Não.

A resposta quase se perdeu sob o rugido do trem.

Nora olhou para o implante de Kai.

—O que é isso atrás da sua orelha?

—Uma interface neural.

—Conectada à Trama?

—Estava.

Kai a tocou com cuidado.

—Emil desativou o transmissor antes de me entregar a chave. Por isso o Silêncio não conseguiu me levar por completo.

—Por completo?

—Minha conexão ainda foi ativada à meia-noite.

Ele levantou a manga.

Linhas negras e finas se espalhavam sob a pele de seu antebraço, avançando lentamente em direção ao ombro.

Nora recuou.

—O que está acontecendo com você?

—A Trama está tentando concluir a transferência.

—Quanto tempo você tem?

Kai não respondeu.

No telefone, a descriptografia das coordenadas chegou a 64%.

O trem entrou em um túnel mais amplo.

Fileiras de trabalhadores imóveis ocupavam as plataformas de manutenção. Alguns seguravam ferramentas. Outros estavam congelados diante de painéis de controle.

Todas as cabeças se viraram quando o trem passou.

As bocas se abriram.

—Doutora Vale.

O título ecoou pelo túnel.

As mãos de Nora tremeram.

—O que eu construí?

Kai permaneceu em silêncio por vários segundos.

—Uma saída.

—De quê?

—Da morte.

—Isso não é uma resposta.

—Foi a resposta que você nos deu.

A lembrança veio sem aviso.

Nora estava dentro do laboratório branco, diante de um grupo de cientistas.

Na tela atrás dela, uma simulação mostrava um cérebro humano se desfazendo em milhões de pontos de luz.

—Uma mente biológica termina quando sua estrutura é destruída —ela ouviu a si mesma dizer. — Se preservarmos a estrutura, a morte se torna uma interrupção, não um fim.

Emil estava no fundo da sala.

Não aplaudia.

A lembrança desapareceu.

Nora quase não viu uma luz de sinalização ficar vermelha à frente.

Um segundo trem bloqueava o túnel.

—Freie! —gritou Kai.

Nora puxou o controle de emergência.

As rodas gritaram.

O trem abandonado cresceu no para-brisa.

Eles não conseguiriam parar a tempo.

O telefone de Emil exibiu uma nova opção:

RECONFIGURAÇÃO DA INFRAESTRUTURA DISPONÍVEL

Nora pressionou.

A primeira chave girou.

Os trilhos sob o outro trem mudaram com um estrondo metálico. Plataformas hidráulicas arrastaram o vagão abandonado para uma linha de serviço segundos antes de Nora e Kai passarem.

A lateral do trem deles raspou contra o outro.

Vidros explodiram.

O metal se rasgou.

Então passaram.

Kai soltou uma risada ofegante.

—Você realmente construiu o sistema de acesso.

—Gostaria que isso me fizesse sentir melhor.

A descriptografia das coordenadas chegou a 100%.

A tela ficou preta.

Uma sequência de números apareceu.

43.7719

−71.2046

Então um mapa topográfico foi carregado.

A localização ficava fora da cidade, sob uma cadeia de montanhas marcada como área de preservação. Nenhuma estrada levava até lá. Nenhum edifício aparecia nos mapas públicos.

Kai reconheceu o lugar.

—North Ridge.

—O que há lá?

—Oficialmente? Um observatório abandonado.

—E extraoficialmente?

—O lugar onde o Silêncio nasceu.

A rota do trem foi atualizada automaticamente.

Uma linha azul se estendeu além dos túneis urbanos, em direção à cadeia de montanhas ao norte.

Tempo estimado de viagem:

37 MINUTOS

Uma nova mensagem apareceu abaixo.

STATUS DA INSTALAÇÃO PRINCIPAL: ATIVA

Nora sentiu um arrepio.

—Você disse que a instalação desabou.

—E desabou.

—Então como está ativa?

Kai não tinha resposta.

A tela mudou novamente.

OCUPANTES DETECTADOS: 1

Nora e Kai se entreolharam.

—Pode ser um trabalhador imóvel? —perguntou ela.

—O sistema classifica pessoas congeladas como conectadas, não como ocupantes.

—Então quem está lá?

O dispositivo começou a baixar um perfil de identidade.

Durante alguns segundos, apenas uma silhueta vazia apareceu.

Então um nome foi definido abaixo dela.

EMIL VALE

Nora parou de respirar.

Kai se inclinou em direção à tela.

—Isso é impossível.

Uma leitura biométrica ao vivo surgiu.

FREQUÊNCIA CARDÍACA: 61 BPM

RESPIRAÇÃO: ESTÁVEL

ATIVIDADE NEURAL: DETECTADA

Emil estava morto havia dezoito meses.

Ainda assim, em algum lugar sob North Ridge, o sistema afirmava que ele estava vivo.

Uma conexão de vídeo foi aberta automaticamente.

A imagem estava escura e granulada.

Nora viu uma sala branca.

Uma câmara de vidro.

Um homem deitado lá dentro.

Antes que pudesse ver seu rosto, ele abriu os olhos.

A tela ficou preta.

Então Emil enviou uma mensagem.

Apresse-se, Nora.

Uma segunda linha apareceu.

Não sei por quanto tempo ainda conseguirei mantê-lo adormecido.

Capítulo 5 — As Coordenadas — Chapter 5 of A Última Pessoa Online | Orivvi