Capítulo 4 — O Outro Sobrevivente
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Nora encarou a última mensagem de Kai.
Porque Emil ajudou a criá-lo.
Acima do viaduto, o objeto negro se movia entre os prédios, varrendo as ruas com seu feixe de luz branca. O zumbido mecânico se afastou e depois retornou de outra direção.
A cidade estava procurando por ela.
Nora digitou:
Quem é você?
A resposta veio imediatamente.
Alguém que não quer morrer esta noite.
Isso não responde à pergunta.
É a única resposta que importa agora.
Um mapa apareceu no telefone de Emil. O ponto verde de Kai se movia pelo distrito leste, atravessando ruas em uma velocidade impossível.
Nora ampliou a imagem.
Você está em um carro?
Em uma ambulância. O modo autônomo ainda funciona.
Por que está me procurando?
Kai não respondeu.
Três pontos vermelhos apareceram atrás do ponto verde dele.
Mudavam de direção sempre que ele mudava.
Nora observou enquanto diminuíam a distância.
Kai, alguma coisa está seguindo você.
Eu sei.
O que são?
Não aqui. Não por escrito.
Uma nova rota apareceu na tela, ligando o viaduto a uma antiga estação de transporte seis quarteirões adiante.
Vá até a Estação Meridian. Plataforma inferior.
Nora não se moveu.
Por que eu deveria confiar em você?
Dessa vez, os três pontos permaneceram por alguns segundos.
Não deveria. Mas Emil disse que você perguntaria isso.
Os dedos de Nora se apertaram ao redor do telefone.
Quando?
Dezoito meses atrás.
Nora leu a frase novamente.
A noite em que Emil morreu.
Um som de raspagem veio da avenida.
As pessoas imóveis estavam virando a cabeça.
Não todas ao mesmo tempo.
Uma após a outra.
O ciclista olhou para Nora.
Depois, a mulher ao lado do carrinho.
Os corpos permaneciam congelados, mas os olhos a acompanhavam sob o viaduto.
O bebê parou de chorar.
Todos os telefones da rua se acenderam.
As telas exibiam o mesmo símbolo: um círculo branco e fino dividido por uma linha vertical.
O telefone de Emil vibrou.
Você tem noventa segundos antes que localizem seu sinal. Mova-se.
Nora correu.
Atravessou a área sob o viaduto e entrou em uma rua comercial estreita.
As pessoas ali também estavam imóveis.
Algumas permaneciam junto às mesas. Outras estavam congeladas nas entradas. Um homem segurava uma xícara inclinada diante da boca, com o café parado na borda sem cair.
Quando Nora passou, os olhos de todos se viraram para ela.
Obrigou-se a não olhar.
Kai enviou outra mensagem.
Não use seu telefone pessoal. Desligue-o.
Nora hesitou.
Seu telefone continha tudo: fotografias da família, mensagens, acesso às contas e o último áudio que Emil havia enviado antes de morrer.
Abandoná-lo parecia apagar o último fragmento de sua vida normal.
Ela o desligou.
No momento em que a tela ficou escura, a cidade ao redor mudou.
Os olhos pararam de acompanhá-la.
Nora reduziu a velocidade.
O telefone de Emil exibia a rota. Uma linha azul a guiava por becos e corredores de serviço, evitando os pontos vermelhos que se moviam pelo distrito.
Como você consegue ver onde eles estão?, digitou.
Da mesma forma que você. As chaves de Emil.
Quantas chaves existem?
Três.
O que elas abrem?
Tudo o que o Silêncio trancou.
Um ponto vermelho apareceu no fim da rua.
Nora parou.
Ele vinha em sua direção.
Não havia onde se esconder, exceto uma pequena clínica cuja porta principal estava entreaberta.
Ela entrou.
A recepção cheirava a desinfetante. Uma televisão transmitia um noticiário sem som sobre fileiras de cadeiras vazias. O apresentador permanecia congelado atrás da bancada, com uma das mãos erguida no meio de uma frase.
Uma enfermeira estava imóvel próxima ao corredor.
Seus olhos se viraram para Nora.
As luzes de emergência piscaram.
Do lado de fora, alguma coisa passou diante da janela da clínica.
Movia-se sem produzir passos.
Nora se agachou atrás da recepção e cobriu o telefone de Emil com o casaco.
O ponto vermelho chegou à clínica.
Parou.
Uma voz veio da entrada.
—Nora?
Emil.
Não era uma gravação.
Nem uma imitação distante.
A voz parecia próxima o bastante para ser tocada.
—Nora, eu posso explicar.
Ela fechou os olhos.
—Eu sei que você está com medo —continuou a voz. — Mas Kai está mentindo.
Nora olhou para o telefone.
O ponto verde de Kai continuava se movendo.
Uma mensagem apareceu.
Não importa o que ouvir, não responda.
A voz de Emil se aproximou.
—Ele estava lá quando eu morri.
Nora prendeu a respiração.
—Ele me abandonou.
A boca da enfermeira se abriu.
A voz de Emil saiu dela.
—Ele me viu sangrar até morrer.
O apresentador congelado na televisão se voltou para a câmera.
—Ele pegou a segunda chave.
O paciente sentado mais perto de Nora moveu os olhos em sua direção.
—Ele está levando você até eles.
As vozes vinham de todos os alto-falantes, telefones e gargantas imóveis da clínica.
—Kai me matou.
Os dedos de Nora pairaram sobre o teclado.
Ela queria perguntar se era verdade.
O ponto vermelho atravessou a entrada da clínica.
Uma forma escura surgiu atrás do vidro fosco da porta da recepção.
O telefone de Emil exibiu uma nova instrução.
ENCOSTE A CHAVE NO CHÃO
Nora pressionou o aparelho contra os ladrilhos.
A chave branca apareceu na tela e girou.
Um pulso atravessou o edifício.
Todas as luzes se apagaram.
As vozes pararam.
A forma escura atrás da porta desabou.
Não como uma pessoa caindo.
Como uma imagem perdendo energia.
O corpo se desfez em milhares de partículas negras que desapareceram antes de tocar o chão.
Durante três segundos, houve silêncio absoluto.
Então os sistemas de emergência do prédio reiniciaram.
A enfermeira piscou.
Sua boca se fechou.
Uma lágrima desceu por seu rosto.
Nora ergueu o telefone.
Uma mensagem apareceu:
REDE LOCAL DESCONECTADA: 60 SEGUNDOS
A rota azul mudou.
Uma saída de serviço piscava nos fundos da clínica.
Nora correu pelo corredor.
Atrás de uma porta, viu uma sala cirúrgica cheia de médicos imóveis. Um paciente permanecia acordado sob as luzes, incapaz de se mover ou falar.
Nora não podia fazer nada por eles.
Ainda não.
Ela alcançou a saída de serviço no instante em que a rede se reconectou.
Todos os monitores da clínica ficaram vermelhos.
Um alarme começou a soar.
Nora entrou no beco e correu em direção à Estação Meridian.
O ponto verde de Kai havia parado de se mover.
Kai?
Nenhuma resposta.
Você ainda está vivo?
O ponto verde piscou.
Então desapareceu.
O contador de humanos ativos mudou.
1
—Não.
Nora correu mais rápido.
A Estação Meridian ficava no fim da avenida, com o teto de vidro curvando-se sobre as antigas linhas ferroviárias. A estação havia sido fechada anos antes, mas seus túneis de manutenção ainda conectavam vários distritos.
Uma ambulância atravessara os portões da entrada.
As portas dianteiras estavam abertas.
O banco do motorista estava vazio.
Um rastro de sangue cruzava o chão.
Nora o seguiu.
As luzes vermelhas de emergência levavam a uma escada marcada:
PLATAFORMA INFERIOR — SOMENTE PESSOAL AUTORIZADO
Ela desceu.
—Kai?
Sua voz ecoou pela estação.
Nenhuma resposta.
No fim da escada, um trem antigo aguardava junto à plataforma. As janelas estavam escuras. Poeira cobria a estrutura metálica, exceto por uma linha de marcas recentes de mãos ao longo de uma das laterais.
O rastro de sangue continuava para dentro do trem.
Nora se aproximou da porta aberta.
Alguma coisa se moveu no interior.
Ela ergueu o telefone de Emil como uma arma.
—Saia.
Uma voz masculina respondeu da escuridão.
—Se eu conseguisse ficar em pé, sairia.
Nora entrou.
Kai estava sentado contra a parede do fundo, com uma das mãos pressionada sobre o lado do corpo. Parecia ter pouco mais de trinta anos, cabelos escuros e curtos e um corte profundo acima da sobrancelha. O casaco estava rasgado, e a camisa coberta de sangue.
Um pequeno dispositivo preto estava implantado sob a pele atrás de sua orelha esquerda.
Nora manteve distância.
—Mostre as mãos.
Kai ergueu as duas lentamente.
—Você é Nora.
—Você já sabia.
—Eu vi fotografias.
—Com Emil?
Kai assentiu.
Nora apertou o telefone.
—Você o matou?
A expressão de Kai mudou.
—Não.
—Ele disse que você matou.
—Aquilo não era Emil.
—Sabia coisas.
—Sabe tudo o que a rede sabe. Mensagens, gravações, prontuários, câmeras e microfones. —Kai olhou para o telefone na mão dela. — E, depois desta noite, memórias.
Nora se lembrou da visão sob o feixe de luz.
Milhões de pessoas em fileiras intermináveis.
Emil com os olhos negros.
—O que aconteceu com todo mundo?
—Eles continuam conscientes —disse Kai. — Seus corpos foram bloqueados à meia-noite, mas as mentes foram transferidas para um ambiente compartilhado.
—Transferidas para onde?
—Nós o chamávamos de Trama.
—Nós?
Kai desviou o olhar.
—Emil, eu e algumas centenas de pessoas que acreditavam estar construindo um abrigo de emergência para a mente humana.
Nora soltou uma risada sem humor.
—Você espera que eu acredite que enviaram o mundo inteiro para lá por acidente?
—Não deveria ter sido ativado globalmente. Não deveria controlar corpos. E aquelas coisas sobre a cidade não deveriam existir.
—As coisas que estão me procurando?
—Unidades de recuperação. Elas recolhem qualquer pessoa que permaneça fora da Trama.
—Por que eu estou fora?
Kai a observou por um longo momento.
—Porque Emil garantiu que você ficaria.
Nora se aproximou.
—Por quê?
—Ele disse que você era a única pessoa capaz de desligá-la.
—Eu cuido de mapas de rede. Não construo prisões neurais.
—Você não se lembra.
As palavras a atingiram com mais força do que esperava.
—Não me lembro de quê?
Kai retirou a mão da ferida e a levou devagar para dentro do casaco.
Nora ergueu o telefone.
—Pare.
—Eu tenho algo que Emil me entregou.
Ele retirou um cartão transparente não maior que uma unha. Um símbolo vermelho pulsava dentro dele.
O mesmo pequeno planeta vermelho que estivera colado no telefone de Emil.
—Ele me deu isto três dias antes de morrer —disse Kai. — Falou que, se o Atlas algum dia mostrasse apenas um usuário ativo, eu deveria encontrar você e entregar a segunda chave.
—Você disse que existem três.
Kai indicou o telefone de Emil.
—Você tem a primeira. Eu tenho a segunda.
—E a terceira?
—Emil morreu tentando escondê-la.
Nora encarou o cartão.
—Por que ele achava que isso aconteceria?
—Ele não achava. Ele sabia.
Um som veio do túnel atrás deles.
Metal arrastando sobre pedra.
Kai olhou para a porta aberta do trem.
—Eles nos encontraram.
Vários pontos vermelhos surgiram no telefone de Emil, entrando na estação pelas duas extremidades.
Kai tentou se levantar.
Os joelhos cederam.
Nora o segurou antes que caísse.
—Você precisa de um hospital.
—Todos nos hospitais estão congelados.
—Deve haver suprimentos em algum lugar.
—Depois. —Kai encostou o cartão transparente no telefone de Emil. — Agora precisamos desaparecer.
Os dois dispositivos se conectaram.
A chave branca da tela se dividiu em duas formas cruzadas.
Um menu oculto foi aberto.
CHAVES ADQUIRIDAS: 2 DE 3
VERIFICAÇÃO DE IDENTIDADE NECESSÁRIA
Uma luz escaneou o rosto de Nora.
Ela recuou.
—O que está fazendo?
Kai encarou a tela.
—Não sei.
O telefone exibiu:
PADRÃO RETINIANO CONFIRMADO
AMOSTRA DE VOZ CONFIRMADA
ASSINATURA NEURAL CONFIRMADA
Nora sentiu uma dor aguda atrás dos olhos.
Imagens atravessaram sua mente.
Um laboratório branco.
Emil parado ao lado de uma parede de vidro.
Kai mais jovem, observando-a do outro lado de uma mesa.
As próprias mãos digitando linhas de código.
O nome de um projeto brilhando em uma tela:
PROTOCOLO SILÊNCIO
A visão desapareceu.
Nora quase deixou o telefone cair.
—Não.
Kai a observou com algo próximo de compaixão.
A última linha apareceu.
AUTORIDADE PRINCIPAL RECONHECIDA
BEM-VINDA DE VOLTA, DRA. NORA VALE
Do lado de fora do trem, dezenas de vozes começaram a sussurrar o nome dela.
Nora olhou para Kai.
—Por que está me chamando de doutora?
Kai não respondeu.
O telefone respondeu.
Uma gravação apareceu na tela.
Nora viu a si mesma no mesmo laboratório branco.
Parecia exausta. Aterrorizada.
A mulher na gravação se inclinou em direção à câmera.
—Se você está assistindo a isto —disse —, Emil não conseguiu me deter.