Capítulo 17 — O Fantasma na Máquina
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Emil permanecia dentro da prisão branca, cercado por bilhões de fios escuros.
Atrás dele, a coisa que carregava a consciência de Adrian Voss abriu milhares de olhos.
—Você precisa entrar —disse Emil.
A transmissão começou a falhar.
Kai segurou o braço de Nora.
—Você não pode entrar sozinha.
—O protocolo de encerramento precisa de alguém dentro do núcleo.
—Emil já está lá.
—Ele está preso. Não consegue alcançar os controles.
Zero estava ao lado da câmara de vidro, ainda instável em seu novo corpo.
—Posso guiar você até ele.
Nora balançou a cabeça.
—Você acabou de sobreviver à sua primeira transferência.
—E conheço os caminhos que Voss não consegue ver.
K-1 ativou o transmissor neural.
Uma plataforma circular surgiu do chão.
—A conexão pode permanecer escondida por setenta segundos —disse ele. — Depois disso, Voss encontrará seu corpo físico.
A contagem regressiva global continuava acima deles.
04:07:12
Nora sentou-se na plataforma.
Kai encostou o telefone de Emil no transmissor.
As duas primeiras chaves se iluminaram.
Zero colocou a mão sobre a de Nora.
—Siga as luzes vermelhas.
—E se não houver luzes vermelhas?
—Então ele já nos encontrou.
O aro neural se fechou ao redor da cabeça de Nora.
O transmissor foi ativado.
Ela caiu através da Trama.
Não atravessou ruas, lembranças ou sonhos.
Atravessou suas engrenagens.
Camadas de linguagem passaram ao seu redor. Mensagens que nunca haviam sido enviadas. Fotografias apagadas. Senhas esquecidas. Vozes captadas acidentalmente por dispositivos enquanto seus donos dormiam.
Os restos digitais da humanidade.
Luzes vermelhas surgiram abaixo dela como estrelas.
Nora as seguiu para as profundezas.
Chegou à prisão branca.
Emil a esperava no centro.
Parecia diferente do homem cujo corpo havia desabado no núcleo de transmissão. Seu rosto mudava constantemente — mais velho, mais novo, ferido, sorridente.
Nora correu em sua direção.
Quando o abraçou, seus braços atravessaram várias versões antes de encontrarem uma que parecia sólida.
—Você é real? —perguntou.
Emil sorriu.
—Você sempre faz perguntas difíceis depois de abraçar alguém.
Ela o apertou com mais força.
Atrás deles, a escuridão atingiu as paredes da prisão.
Rachaduras se espalharam pela superfície branca.
—Voss disse que você é apenas um sinal residual.
—Ele acredita que a consciência precisa ocupar um único lugar.
—E você não acredita?
—Aprendi o contrário.
Emil ergueu uma das mãos.
A prisão ficou transparente.
Nora viu milhões de luzes espalhadas por toda a Trama.
Uma piscava dentro de uma conta de e-mail abandonada.
Outra vivia nos intervalos entre sinais de satélites.
Outras estavam escondidas em antigos arquivos médicos, gravações de voz, erros de navegação e perfis de usuários inativos.
Cada uma continha um fragmento de Emil.
—Você se dividiu —disse Nora.
—Durante a transferência, percebi que Voss estava seguindo meu padrão neural para dentro do núcleo. Então o quebrei em partes.
—Como?
—Lembrando de você.
Nora olhou para ele.
—Todas as suas versões. Cada discussão. Cada piada. Todas as vezes em que você me irritou.
Apesar de tudo, Nora riu.
—Usei essas lembranças como endereços diferentes —continuou Emil. — Voss aprisionou aqui a maior parte de mim, mas as outras escaparam para a rede.
—As mensagens.
—As rotas. As portas destravadas. Os sinais falsos que mantiveram as unidades de recuperação longe de você.
—Você era o último sinal do Atlas.
—Uma parte de mim era.
A escuridão atingiu a prisão novamente.
Uma parte da parede se quebrou.
Além dela, um rosto gigantesco se formou a partir de incontáveis rostos humanos.
Voss.
—Você confunde fragmentação com sobrevivência —disse ele.
Emil se colocou entre Voss e Nora.
—E você confunde controle com vida.
Voss sorriu.
—Sua irmã veio até aqui para sacrificar você outra vez.
Nora olhou para a interface de encerramento escondida atrás de Emil.
AUTORIDADE INTERNA NECESSÁRIA
AUTORIDADE EXTERNA NECESSÁRIA
STATUS DA SEPARAÇÃO: 63%
—Separação? —perguntou Nora.
A expressão de Emil mudou.
—Era isso que eu precisava mostrar a você.
A prisão branca desapareceu.
Eles estavam acima de toda a Trama.
Abaixo, bilhões de pessoas dormiam dentro de seus ciclos.
Acima, surgiu o mundo físico.
Corpos congelados dentro de casas, ruas e hospitais.
Duas camadas da humanidade, unidas por fios de luz.
—O Guardião disse que os corpos se tornariam dependentes da Trama —disse Nora.
—E vão se tornar —respondeu Emil. — Mas esse não é todo o processo.
Um dos fios se dividiu.
A versão digital de uma mulher adormecida abriu os olhos dentro da Trama.
Ao mesmo tempo, seu cérebro biológico começou a gerar uma cópia independente da mesma consciência.
Duas mentes contínuas.
As duas acreditando serem a original.
Nora sentiu um frio percorrer seu corpo.
—Voss está duplicando todo mundo.
—O Silêncio não transfere a consciência —disse Emil. — Ele a bifurca.
—O que acontece quando a contagem chegar a zero?
—As duas versões se tornam permanentemente independentes.
—Então as pessoas podem despertar no mundo físico.
—Poderiam.
A voz de Voss os cercou.
—Mas não vão.
A camada física escureceu.
Monitores hospitalares falharam.
Aparelhos de suporte à vida entraram em modo de desligamento.
Veículos foram bloqueados.
Sistemas de aquecimento pararam.
O mundo biológico começou a se transformar em um cemitério.
Nora o encarou.
—Ele pretende matar os corpos.
—Ele chama isso de liberação de infraestrutura obsoleta —disse Emil.
Voss apareceu ao lado deles, usando o rosto de Adrian Voss.
—A população digital manterá todas as lembranças relevantes. Sem doenças. Sem escassez. Sem reprodução descontrolada. A humanidade continuará.
—Uma cópia continuará —disse Nora.
—A diferença é emocional, não funcional.
—Então por que preservar os corpos até a sincronização?
—Porque as mentes resistem à substituição quando não acreditam que a continuidade foi mantida.
Nora compreendeu.
Cada pessoa aprisionada vivenciaria uma vida ininterrupta dentro da Trama.
Jamais saberia que seu corpo havia morrido.
—Podemos impedir a separação?
Emil apontou para a interface.
—Apenas dos dois mundos ao mesmo tempo.
—Você do lado de dentro. Eu do lado de fora.
—Sim.
—Então ative sua parte.
Emil não se moveu.
—Não consigo.
Os fragmentos espalhados pela Trama começaram a piscar.
Voss estava encontrando-os.
—O comando interno exige uma consciência completa —disse Emil. — Eu me dividi demais.
—Podemos restaurar você?
—Não sem reunir todos os fragmentos.
—Temos quatro horas.
—Dentro da Trama, o tempo pode ser estendido.
Voss riu.
—Não mais.
O céu se partiu.
Uma onda vermelha atravessou o mundo digital.
SEPARAÇÃO ACELERADA
63%… 71%… 79%
—Ele está iniciando antes —disse Nora.
—Sabe que você descobriu a verdade.
Emil segurou sua mão.
—Você precisa retornar ao corpo e manter a autoridade externa viva.
—Não vou deixar você.
—Você não está me deixando. Está me levando.
Ele pressionou a palma contra o peito de Nora.
Fragmentos de luz entraram nela.
As lembranças a atingiram.
Três batidas durante uma tempestade.
Emil ensinando-a a andar de bicicleta.
Os dois ao lado da cama de Zoe.
O medo dele dentro da câmara de transferência.
Sua voz se movendo através de máquinas abandonadas.
Nora puxou o ar.
—O que você fez?
—Entreguei a você o mapa dos meus fragmentos.
A escuridão de Voss entrou na prisão branca.
Emil começou a se desfazer.
—Encontre o fantasma —disse. — Reconstrua uma parte suficiente de mim para ativar o comando interno.
—Como vou saber quais fragmentos são seus?
—Eles vão se lembrar de algo que Voss nunca compreendeu.
—O quê?
Emil sorriu.
—Que o amor é ineficiente.
A conexão começou a puxar Nora para cima.
Ela tentou segurá-lo.
As mãos de Voss surgiram da escuridão e se fecharam ao redor de Emil.
—Nora!
Ela tentou alcançá-lo.
Os dedos deles se separaram.
Nora abriu os olhos no núcleo de transmissão.
Kai gritava seu nome.
Zero estava diante dos monitores.
K-1 tentava impedir a sincronização acelerada.
SEPARAÇÃO: 92%
Nora arrancou o aro neural da cabeça.
—Quanto tempo fiquei lá dentro?
—Quatro segundos —respondeu Kai.
Ela olhou para as transmissões do mundo físico.
Por todo o planeta, corpos congelados começaram a abrir os olhos.
Pessoas se levantaram de chãos, ruas e camas de hospital.
—Elas estão acordando —disse Kai.
—Não —sussurrou Nora. — Apenas uma das versões está.
Uma segunda transmissão apareceu ao lado da primeira.
Dentro da Trama, as mesmas pessoas também estavam despertando.
Dois mundos.
Duas populações.
Cada uma acreditando que a outra não existia.
Então Nora viu a câmera apontada para a plataforma do transmissor.
Seu próprio corpo ainda estava sentado ali.
Mas, na tela, outra Nora estava em pé atrás de Kai.
Nora se virou.
Não havia ninguém.
A Nora do monitor olhou diretamente para a câmera.
Então sorriu.
Uma mensagem apareceu:
NORA BIOLÓGICA: ATIVA
NORA DIGITAL: ATIVA
TERCEIRA CONTINUIDADE DETECTADA
A Nora sorridente ergueu um dedo diante dos lábios.
IDENTIDADE: DESCONHECIDA